16.10.06

poema matinal

sente-se mais um inverno a aproximar,
o vento despe a última roupa às árvores
e sopra como que a avisar:
“abriguem-se que trago a chuva no ar!”

o branco acinzentado do céu confunde-se,
confunde-se com as fachadas ao léu,
é ainda uma claridade de outono
que cobre a cidade como um véu.

as pessoas caminham de sombreiro na mão,
trazem vestígios da noite no olhar
trazem o atraso de quem apressa o caminhar
e, de olhar no chão,
denunciam a pouca vontade de trabalhar.

nesta manhã de segunda-feira
(em que se sente o inverno aí à beira),
caminha assim esta humanidade
por entre os outonos da cidade.

14.10.06

ícaro

não fosse ícaro um personagem mitológico e teria pensado duas vezes antes de voar, teria usado do pensamento lógico p'ra prever que asas de cera podem derreter... ao sol

13.10.06

pequeno apontamento sobre blogs amigáveis

o gesto de comentar um qualquer post de um dos blogs que frequentamos, é sempre um gesto de aproximação ao outro. há quem o faça com mais ou menos assiduidade, com mais ou menos à vontade mas, felizmente, há sempre quem o faça. por outro lado, ver-se comentado significa ser-se encontrado e sentir-se aproximado, sentir-se entendido (ou não), mas acima de tudo, sentir-se “ouvido”. sendo o blog um novo lugar de partilha desta humanidade do século XXI, aconselha-se vivamente a criação (ou recuperação) de laços entre as almas que se expõem, entre as almas que se redescobriram no gesto de escrever e se abriram no segredo publicado.
tudo isto é ainda muito novo para todos, toda esta exposição é ainda um pouco assustadora, é verdade… mesmo assim, continuamos a dar corda aos dedos e uso às teclas, com a sinceridade particular de quem o faz sem vícios nem enganos por entre as virtualidades do interior de cada um. é como se nos atirássemos de cabeça para dentro de nós mesmos e mergulhássemos através de um mundo onde encontramos toda a gente. no fim, acabamos por reparar que não fomos os únicos a fazê-lo e sentimo-nos em casa.
um blog é um lugar, um post é uma mensagem e um comentário é essa mensagem devolvida com um bocadinho de quem a ouviu.

12.10.06

mais pessoa...

nem sempre sou igual no que digo e escrevo
mudo, mas não mudo muito.
a cor das flores não é a mesma ao sol
do que quando uma nuvem passa
ou quando entra a noite
e as flores são cor da sombra

mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
por isso quando pareço não concordar comigo,
reparem bem para mim:
se estava virado para a direita,
voltei-me agora para a esquerda,
mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés
o mesmo sempre graças ao céu e à terra
e aos meus olhos e ouvidos atentos
e à minha clara simplicidade de alma…


alberto caeiro

deixem

deixem ser quem é
deixem ver quem vê
deixem vir quem vem
deixem ter quem tem
deixem a nuvem chover
deixem o céu escurecer
deixem o sol brilhar
deixem o vento soprar
deixem o sangue lutar
deixem a pele a suar
deixem em paz o olhar
deixem-me ser assim
deixem-me ser em mim
deixem-me estar
deixem-me escrever
deixem-me ser
assim como sou
p’ra quem quiser ver

10.10.06

drago, querias poesia? pois bem, aí está!

se alguém lhe sugere um poema
não se inquiete e não trema, não
não pense na poesia e ria, sorria
ria de quem pensa que por ser poeta
despe a alma p’ra quem cego é
mas sorria com quem a vê como ela é
e na poesia pára, sem fé, a olha e a escuta
e a vê, a ela, à alma, como ela é
não se inquiete e não embarque nessa luta
não queira ver com os olhos do poeta
e tente ter como suas as palavras que lê
como quem escreve como ama e é poeta
como quem ama como escreve e é amante
e como se tudo isso não fosse o bastante
p’ra na poesia se confessar a quem a lê.

9.10.06

escolhas

que se façam escolhas quando as há a fazer. que se encarem de frente e que se tomem decisões porque é disso que a vida é feita, porque só assim sentimos nas nossas mãos o destino que nos pertence.
o problema das escolhas é o de corrermos o risco de fazermos a errada e acabarmos por cair no poço do arrependimento, contudo, será mais fundo o poço de quem (confrontado com escolhas) opta por fazer a mais passiva de todas e escolhe nada fazer, permanecendo passivo à espera que seja a vida a decidir por si... quando assim é, é a vida que vive as pessoas e não o contrário...
não é minha intenção tornar estas palavras num discurso moralista, não me sinto legitimado a fazê-lo... estas palavras tornaram-se-me necessárias após uma pequena conversa com uma amiga, uma conversa a propósito da vida, das escolhas, da coragem e da cobardia, da inércia e da iniciativa... estas são as palavras de quem, por vezes, se sente desapontado com quem se deixa levar pela vida carregando-a entre o medo de arriscar e a vontade de ser feliz.

6.10.06

interrogações entre o lusco e o fusco, entre quem as escreve e quem as lê

o que se mostra pode ser diferente do que se vê.
o que se vê nem sempre é o que se exibe.
o que se sente foge-nos aos sentidos mas vive...
no fim e afinal, resta-nos o quê?
que se viva com os enganos dos sentidos?
com os sentimentos exibidos ou contidos?
com as certezas assumidas ou escondidas?
no fim e afinal, vive-se onde?
nas grades d'almas aprisionadas?
no medo de gestos no escuro?
no receio de sorrisos iluminados?
na verdade em cada lado do muro?
no fim e afinal, vive-se de quê?
vive-se d'alegria de espíritos libertados?
da liberdade de sentidos alegrados?
da candura de olhares embasbascados?
sei o que digo mas digo mais,
sei que se vive do calor do sol,
sei que se vive da melancolia da lua,
sei que há vida na alma que é minha
e que ela vive um pouco na tua.

5.10.06

pensamento

o pensamento pode ter elevação sem ter elegância, e, na proporção em que não tiver elegância, perderá a acção sobre os outros. a força sem a destreza é uma simples massa.

bernardo soares,
ajudante de guarda-livros na cidade de lisboa
e heterónimo de fernando pessoa