19.9.06

encontros

quando os dias nos fazem procurar os amigos e as noites se nos embrenham pelos ossos adentro, é na calma caseira que encontramos o abrigo comum. se no sítio público o barulho nos enche os tímpanos, o fumo nos entope as narinas e os estranhos são demais, é em casa que nos encontramos com a paz, é no encontro planeado ou espontâneo, no convívio caseiro, no aperitivo, no jantar, na sobremesa, no café e no digestivo, que nos vemos gratos por nos sentirmos recheados de tanta amizade.
à medida que vamos crescendo e a exigência nos torna senhores do momento, é nesta partilha caseira que nos sentimos mais próximos dos que estão connosco, que rimos e choramos como se a familiaridade do encontro nos permitisse uma entrega descomplexada e sem vícios. são momentos em que nos entregamos ao olhar do outro e nos deixamos embalar pela som da sua voz, são momentos em que aprendemos e ensinamos, somos adultos e crianças, somos mais humanos. é verdade que continuamos a apreciar a agitação do café, da esplanada ou do bar, contudo, é em casa que mais facilmente nos sentimos completos, nos entregamos e recebemos de braços abertos e sorriso largo o que de melhor nos possa chegar de quem aprecia a nossa companhia. mais do que a jantarada (que é a desculpa para coisas melhores), é no encontro, na partilha, no convívio, na tertúlia, na música a condizer e no brinde, que se encontra a alegria de momentos únicos vividos em comum.
o sérgio godinho diz que “a vida é feita de pequenos nadas”, pois bem, são pequenos nadas como estas pequenas jantaradas que nos fazem crescer ao lado daqueles de quem gostamos e nos fazem amar a vida como ela é: simples, familiar e sem merdas.

18.9.06

olhares invasivos

às vezes sentem-se olhares nas costas, olhares que nos invadem sem que o queiramos ou deixemos, olhares que nos tocam sem que os vejamos, olhares às vezes incómodos, às vezes insignificantes, às vezes ignorados mas, todos eles, invasivos.
não me chateia a invasão inerente à própria exposição, não há nada a esconder e, portanto, invadem o que o que sou ou deixo ver sem que isso me aborreça verdadeiramente. o que me aborrece, isso sim, é o abuso, a presunção de quem acha que fica a conhecer melhor por invadir e continua a fazê-lo incessantemente, sem a mínima discrição ou respeito pelo espaço vital do outro, do outro e dos que vivem perto de si. serão provavelmente casos de pura ignorância, ausência de tacto, de savoir faire ou de outras demais limitações.
há, por outro lado, quem consiga ter a habilidade de invadir sem se fazer notar, sem se mostrar na multidão que está. nestes casos, o respeito é mútuo e a liberdade existe para todos na mesma medida, coisa rara mas interessante de se notar.
há ainda os que se mostram a invadir e não têm problemas nenhuns em o assumir, aprecio mais estes do que os primeiros mas menos do que os segundos. aqui, a frontalidade poderá ser tida como uma virtude perfeitamente desnecessária para o caso.
esta percepção dos olhares invasivos pode até ser exagerada na análise, contudo, ela será com certeza uma realidade que cada um entende da sua forma particular, de tal maneira que mais tarde ou mais cedo, aqui ou ali, cada um acaba por agir e/ou reagir (ou nem uma coisa nem outra) em função dessa perspectiva, perspectiva que é ainda influenciada pelo grau de importância que o invadido atribui ao invasor.

14.9.06

vivo

vivo ao sabor da chuva que recomeçou a cair
vivo em cada gota a vida que me cai do olhar
vivo na pressa de quem vai, para voltar a ir
e na certeza de quem aqui escreve só por falar

vivo as minhas noites antes dos dias
e tenho as madrugadas como guias
acordo e vivo antes de adormecer
vivo acordado até mais não poder

assim vivo e volto a viver
até a noite eterna chegar
que um dia me há-de vir ver
e nos braços me há-de levar

12.9.06

11.9.06

no mar

já no seu seio, este nosso caminhante encontra uma paz inédita para tão estranho mar. sente-se como se, por segundos, se visse a si próprio no reflexo das águas. são sensações novas acompanhadas por gigantescas doses de familiaridade, são momentos em que abraça este mar como se do céu se tratasse. sem perder a consciência do desconhecimento, o caminhante livra-se de qualquer peso que o possa atrasar dos ventos e correntes que o conduzem e encontra no mar em si, aquilo que o velho d’o velho e o mar encontra no peixe ao qual quer ganhar uma luta titânica. nunca na vida ele havia olhado com tão grande à vontade algo de tão novo, estranho e grandioso. por momentos, isso deixa-o pensativo… mas é só por momentos, logo depois, abandona-se à alegria da entrega pura e sem medidas e recebe do mar tanto ou mais do que aquilo que se sente a dar. sente-se preenchido por isso e vive a viagem deitado de costas nas águas, olhando o céu sem reservas.

8.9.06

a caminhada

depois de mais de um ano preso nas estepes siberianas, o nosso viajante resolveu arriscar e pôr-se a caminho. receia a dureza da caminhada mas não se assusta, poucas coisas o assustam, pensa ele. veste a mochila e abastece-se de água. arranca sem qualquer mapa ou guia e espera confiar no sol. sabe que é primavera e sabe que o nascente está a este, se resolver viajar de noite, confiará nas estrelas.
segue para sudoeste e caminha com um sorriso nos lábios, deixou a frieza na sibéria e começa a sentir a frescura de ambientes mais temperados. caminha sem parar e vai descansando quando isso é o mais sensato que há a fazer. dorme de noite ou de dia consoante a força do sono. todos os dias pensa na visão do paraíso que alimenta a sua vontade de caminhar em frente, sonha com ele quando dorme e vê-o para onde quer que olhe, sabe que faz o que pode para o alcançar e isso preenche-o. caminha numa primavera povoada de flores, árvores, cheiros de primavera e imponentes árvores que lhe dão a sombra do descanso. aproxima-se cada vez mais de climas quentes até que lhe começam a causar uma espécie de caos interior os conflitos e turbilhões do médio oriente, não é nada com ele e não se mete, desvia as suas atenções para as montanhas rochosas despidas de neve, há muito que não via montanhas quentes e despidas de neve. os cheiros frescos da primavera começam a ser escassos, sente que se vai aproximando cada vez mais de uma brisa quente e constante que o ataca de frente, virá a descobrir que é o deserto. quando de repente o encontra (ao deserto), encara-o de frente e diz-lhe que não tem medo dele, que já não é a primeira vez que caminha num deserto, que não baixará os braços e que caminhará pelo meio dele mesmo que no meio não encontre o paraíso, o oásis que havia sonhado lá encontrar. agarra as alças da mochila com as duas mãos perto dos ombros, inclina levemente a cabeça para a frente e dá o primeiro de muitos passos decididos. vê-se agora a atravessar o deserto, as esperanças de encontrar o paraíso prometido são cada vez menos, a preparação (para o pior) que trazia consigo, impede-o de se vergar às circunstâncias. faz um pequeno desvio para norte e sente o deserto a afastar-se, regressa para sudoeste e tenta uma última procura, sente que será a última porque se lhe esgotaram as forças da esperança. durante toda uma semana, deixa de ver o paraíso, nem uma miragem, nem um sonho. é o ponto de viragem. muda novamente de rota mas desta vez sem se preocupar com o destino ou a orientação. alguns dias depois desta viragem, dá consigo parado em frente a um enorme mar, já só pode seguir em frente se embarcar. está calor sem ser em demasia e sente o aroma fresco da água a misturar-se-lhe com a transpiração que lhe ocupa a pele. o mar deixa-o intrigado, interessado, embarca e envolve-se de ondas que lhe deixam a alma a flutuar como há muito não acontecia. está bem agora o nosso caminhante.

7.9.06

bem

- estás bem?
- muito bem, e tu?
- também
- ainda bem!

6.9.06

pequeno apontamento sobre o jogo da sedução

o jogo e o absoluto desconhecimento das regras do outro jogador, tornam o jogo da sedução num perfeito trapézio sem rede. fala-se na primeira e na segunda pessoas, dá-se o melhor que se pode e sabe e nem mesmo assim se sonha com os trunfos do outro. fazem-se apostas, perde-se e ganha-se e mesmo assim não se adivinha quem vai à frente na pontuação. quando os dois são estranhos, o jogo é mais justo, quando, pelo contrário, (pelo menos) um dos jogadores já “conhecia” o outro, as coisas assumem desde logo proporções de injustiça. neste jogo, a surpresa, o engano, o bluff, os olhares, os sorrisos e os gestos, assumem o papel do desequilíbrio e dão vantagem a quem melhor controla o conjunto destas variáveis. no essencial e quando o prazer de jogar é assumidamente mútuo, ninguém perde e acabam os dois por ganhar. o grande problema prende-se exactamente com o desconhecimento das regras pelas quais o outro jogador se rege. há sempre um clima de insegurança que os dois vão alimentando na tentativa de guardar para si o trunfo que poderá decidir a vitória. quando os dois têm consciência disto tudo, o jogo torna-se num vício.

4.9.06

a propósito de desenvolvimento humano

“the aspects of the environment that are most powerful in shaping the course of psychological growth are overwhelmingly those that have meaning to the person in a given situation”.

urie bronfenbrenner

3.9.06

dizem os astros

"on the favorable side, there exists a vast reservoir of creativity which could be successfully applied to such pursuits as writing and poetry."

- pronto, tá explicado!

http://www.astro.com/

não admira que haja tanta gente interessada (quiçá viciada) nestas coisas, senão vejamos:

"venus was in the third house of your horoscope at the time of birth. you are keenly interested in the creative arts, and your thoughts and words are surrounded by a halo of beauty, taste, and proportion. your mind actually feels the emotions connected with nature and the higher aspects of things human."

quem é que não se sente bem depois de ler coisas destas a seu respeito? (e estas nem são das mais elogiosas!)