21.5.06

nem ciência nem falso

"o leitor há-de ver já a seguir que o autor não é forte em ciência, de modo que tudo quanto ficar escrito não terá absolutamente nada de científico. será exactamente nem científico nem falso, ao mesmo tempo."

(diz o almada negreiros antes de começar o nome de guerra e digo eu apropriando-me das suas palavras)

18.5.06

assim

recomeço este post... não é vulgar mas tive que recomeçar... ainda não sei exactamente o que vou dizer mas tenho que dizer alguma coisa sobre o dia de hoje. tenho que dizer que viver é um prazer. tenho que dizer que tenho sorte, apesar de tudo tenho sorte. tenho amigos que são mais do que irmãos, tenho outra familia para lá da minha, passo os dias no meio das crianças e às vezes tenho a sensação que só conheço gente boa. o dia de hoje fez-me sentir assim.

k.

"k" porque sim. não por causa do eterno personagem do kafka mas porque é um nick do mais simples que há. gosto da letra. o ponto faz-lhe companhia. pronto. foi a dissertação possível sobre a razão de um nickname.

16.5.06

ao contrário

oh como eu gostava que desta vez fosse ao contrário, possuir-lhe a alma antes do corpo, entrar dentro dela sem lhe tocar e depois tê-la toda só p’ra mim. minutos a fio, horas, dias, meses, anos, uma eternidade.

anjo

desde a noite do sonho (cuja única lembrança é a de ter olhado por segundos um anjo) que toda a minha vida se alterou. agora, perco horas nisto e não consigo fazer outra coisa, lamentações de gajo que já ultrapassou a idade de passar a vida a queixar-se das desgraças amorosas, das separações dolorosas, de amores platónicos ou impossíveis. das duas uma: ou este anjo veio para me salvar de uma dor maior ou, (porque habitava já os meus dias) resolveu aparecer-me no sonho para me complicar ainda mais a vida...
14 de maio

adeus

Assim se foram seis anos, assim termina o mais longo período de uma vida passada a meias, assim, uma confusão repentina, uma indefinição momentânea que se tornou numa separação definitiva. Ritmos de vida, gostos e interesses diferentes, duas linguagens, uma casa e uma cadela que ficou com ela apesar de gostar mais de mim, ou não fosse eu o seu companheiro de passeio, no passeio, nas ervas, nos matos, nas obras, na estrada… ou não fosse eu o seu saciador nas suas horas de maior aperto apetitivo, ou não fosse eu o matador da sua sede. Foi ela quem da rua a tirou e para casa a levou. É dela a cadela.
Agora, que venham os dias, que venha a vida que desde sempre separou e uniu os humanos, os povos, os homens e as mulheres e as fez felizes e infelizes. Que venha a vida, que não acabe já e que não me traga doenças e desgraças, que não me traga gente má mas me dê mais amigos. Os amigos. Foram eles que mais uma vez me salvaram, foram eles os conselheiros, ouvintes, ajudantes e irmãos. A família está longe infelizmente mas os amigos, mais uma vez, foram Amigos dignos do nome.

4 de maio

o fim

murchou e morreu
a flor do amor,
se foste tu ou eu
quem criou esta dor,
nem interessa discutir
porque fomos os dois,
que em vez de sorrir
deixámos p’ra depois,
o que o depois veio tarde,
porque o amor já não arde
porque a flor já morreu
neste jardim que foi teu.
agora fico eu
sem cheiro nem cor
porque morreu a flor
do jardim que era teu.
27 de abril

24.4.06

flor, vento, tempestade

quando se colhe uma flor,
ela morre antes de murchar.
às vezes, colhem-se tempestades
sem ter sido semeado qualquer vento,
e se a flor não não tiver sido colhida,
aguenta tanto uma como o outro.

13.4.06

viva o jazz faz favor!

apeteceu-me dizer alguma coisa a propósito de qualquer coisa boa, boa no sentido de positiva e agradável. ouve-se o coltrane plays the blues, começa a cabeça a balançar entre os auscultadores, o pé no fundo da perna que descansa cruzada em cima da direita a abanar. quando o trompete aparece no meio do contrabaixo e da bateria, todo o corpo se balança enquanto os dedos pulam por entre as letras do teclado. estes dedos, de vez em quando levantam-se para também eles dançarem, enquanto que lá em cima, o pescoço se estica para a cabeça bailar mais longe e os olhos fixarem o ecrã. uma coisa positiva. se não fosse, não me daria ao trabalho a que me dei p´ra transformar em palavras, sete minutos e cinquenta e dois segundos agradáveis na vida de um homem. na verdade, vamos já na música quatro, as vírgulas nunca encaixam como queremos, as palavras às vezes não nos parecem as mais adequadas, a música obriga-nos a desleixar as palavras, o ecrã e o teclado, enfim… viva a música e vivam já se faz favor!

p.s. o título do post fecha sempre estes pequenos momentos de devaneio “musico-escritos”. é portanto no fim, que percebo o quanto a coisa positiva que se queria ao início, acaba por fazer sentido. duas coisas simples que entre elas proporcionam a um ser humano um pequeno momento de felicidade. música e palavras. este até teria sido um título mais condigno do post, música e palavras.

john coltrane live

1.4.06

outro género de mulheres

há mulheres que só por existirem fazem valer a pena que o mundo exista. há mulheres que valem mais do que qualquer monumento, qualquer sinfonia, qualquer obra-prima do cinema, do teatro, da música, da pintura e de tudo o que se manifesta em forma de arte. há mulheres que só por atravessarem a praça num fim de tarde primaveril, deviam ter à sua espera do outro lado dessa praça, um ramo de lírios e um copo de sumo de laranja natural, fresco, docinho e sem açúcar.


van gogh, lirios, 1888